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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Viver ou Juntar dinheiro?

Achei esse texto do Max Gehringer muito interessante...

Há determinadas mensagens que, de tão interessante, não precisam nem sequer de comentários. Como esta que recebi recentemente.

Li em uma revista um artigo no qual jovens executivos davam receitas simples e práticas para qualquer um ficar rico. Aprendi, por exemplo, que se tivesse simplesmente deixado de tomar um cafezinho por dia, nos últimos quarenta anos, teria economizado 30 mil reais. Se tivesse deixado de comer uma pizza por mês, 12 mil reais. E assim por diante.

Impressionado, peguei um papel e comecei a fazer contas. Para minha surpresa, descobri que hoje poderia estar milionário. Bastaria não ter tomado as caipirinhas que tomei, não ter feito muitas viagens que fiz, não ter comprado algumas das roupas caras que comprei. Principalmente, não ter desperdiçado meu dinheiro em itens supérfluos e descartáveis.

Ao concluir os cálculos, percebi que hoje poderia ter quase 500 mil reais na minha conta bancária. É claro que não tenho este dinheiro.

Mas, se tivesse, sabe o que este dinheiro me permitiria fazer?

Viajar, comprar roupas caras, me esbaldar em itens supérfluos e descartáveis, comer todas as pizzas que quisesse e tomar cafezinhos à vontade.

Por isso, me sinto muito feliz em ser pobre. Gastei meu dinheiro por prazer e com prazer. E recomendo aos jovens e brilhantes executivos que façam a mesma coisa que fiz. Caso contrário, chegarão aos 61 anos com uma montanha de dinheiro, mas sem ter vivido a vida.

"Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim ele saberá o VALOR das coisas e não o seu PREÇO"

Que tal um cafezinho?
 
(Max Gehringer)

sábado, 6 de novembro de 2010

Consagrado: reflexo da beleza de Deus.

Nesta sexta-feira, dia 05 de novembro de 2010, vivênciei o último retiro deste ano com a minha comunidade religiosa. O pregador do Retiro foi o Pe. Reinaldo Baggio, meu antigo reitor em Curitiba. O tema pregado foi: "Consagrado: reflexo da beleza de Deus". Foi uma fantástica oportunidade de olhar para as bases da minha vida religiosa e perceber que eu sou uma viva imagem de Deus no mundo e fui chamado por Ele exatamente pra dar testemunho dessa beleza. O pregador se baseio nas palavras do Saudoso Papa João Paulo II que dizia no documento "Vita Consecrata": " Com profunda intuição, os Padres da Igreja qualificaram este caminho espiritual como filocalia, ou seja, amor pela beleza divina, que é irradiação da bondade de Deus. A pessoa que é progressivamente conduzida pelo poder do Espírito Santo até à plena configuração com Cristo, reflecte em si mesma um raio da luz inacessível, e na sua peregrinação terrena caminha até à Fonte inexaurível da luz. Deste modo, a vida consagrada torna-se uma expressão particularmente profunda da Igreja Esposa que, movida pelo Espírito a reproduzir em si mesma os traços do Esposo, aparece na presença d'Ele « gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada » (Ef 5,27)."
Nós homens e mulheres do séc. XXI temos uma forte aversão à tudo aquilo que não nos dá "prazer", então olhamos para os conselhos evangélicos e a primeira coisa que pensamos é na renúncia, pena que muitos não dão o segundo passo e não percebem que os "conselhos evangélicos" não são renúncias são respostas de Amor, Àquele que nos amou primeiro. É através dos conselhos que dizemos senhor eu te amo e quero viver como Vós. Quero terminar essa postagem com um trecho do documento Vita Consecrata.

Assim os conselhos evangélicos são, primariamente, um dom da Santíssima Trindade. A vida consagrada é anúncio daquilo que o Pai, pelo Filho no Espírito, realiza com o seu amor, a sua bondade, a sua beleza. De facto, « o estado religioso patenteia (...) a elevação do Reino de Deus sobre tudo o que é terreno e as suas relações transcendentes; e revela aos homens a grandeza do poder de Cristo Rei e a potência infinita com que o Espírito Santo maravilhosamente actua na Igreja » (35).
A primeira tarefa da vida consagrada é tornar visíveis as maravilhas que Deus realiza na frágil humanidade das pessoas chamadas. Mais do que com as palavras, elas testemunham essas maravilhas com a linguagem eloquente de uma existência transfigurada, capaz de suscitar a admiração do mundo. À admiração dos homens respondem com o anúncio dos prodígios da graça que o Senhor realiza naqueles que ama. Na medida em que a pessoa consagrada se deixa conduzir pelo Espírito até aos cumes da perfeição, pode exclamar: « Contemplo a beleza da vossa graça, vejo seu brilho, irradio sua luz; fico cativado pelo seu inefável esplendor; acabo arrebatado longe de mim, sempre que penso ao meu próprio ser; vejo como era e no que me tornei. Ó maravilha! Presto toda a minha atenção, fico cheio de respeito por mim mesmo, de reverência e de temor como se estivesse diante de Vós mesmo; não sei o que fazer, porque a timidez se apoderou de mim; não sei onde sentar-me, donde me aproximar, onde repousar estes membros que Vos pertencem; em que iniciativa, em que obra empregá-las, estas encantadoras maravilhas divinas » (36). Deste modo, a vida consagrada torna-se um dos rastos concretos que a Trindade deixa na história, para que os homens possam sentir o encanto e a saudade da beleza divina.
Nos conselhos, o reflexo da vida trinitária
21. A relação dos conselhos evangélicos com a Trindade santa e santificadora revela o sentido mais profundo deles. Na verdade, são expressão do amor que o Filho nutre pelo Pai na unidade do Espírito Santo. Praticando-os, a pessoa consagrada vive, com particular intensidade, o carácter trinitário e cristológico que caracteriza toda a vida cristã.
A castidade dos celibatários e das virgens, enquanto manifestação da entrega a Deus com um coração indiviso (cf. 1 Cor 7,32-34), constitui um reflexo do amor infinito que une as três Pessoas divinas na profundidade misteriosa da vida trinitária; amor testemunhado pelo Verbo encarnado até ao dom da própria vida; amor « derramado em nossos corações pelo Espírito Santo » (Rm 5,5), que incita a uma resposta de amor total a Deus e aos irmãos.
A pobreza confessa que Deus é a única verdadeira riqueza do homem. Vivida segundo o exemplo de Cristo que, « sendo rico, Se fez pobre » ( 2 Cor 8,9), torna-se expressão do dom total de Si que as três Pessoas divinas reciprocamente se fazem. É dom que transborda para a criação e se manifesta plenamente na Encarnação do Verbo e na sua morte redentora.
A obediência, praticada à imitação de Cristo cujo alimento era fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34), manifesta a graça libertadora de uma dependência filial e não servil, rica de sentido de responsabilidade e animada pela confiança recíproca, que é reflexo, na história, da amorosa correspondência das três Pessoas divinas.
Assim, a vida consagrada é chamada a aprofundar continuamente o dom dos conselhos evangélicos com um amor cada vez mais sincero e forte na sua dimensão trinitária: amor a Cristo, que chama à sua intimidade; ao Espírito Santo, que predispõe o espírito para acolher as suas inspirações; ao Pai, origem primeira e fim supremo da vida consagrada (37). Esta torna-se, assim, confissão e sinal da Trindade, cujo mistério é indicado à Igreja como modelo e fonte de toda a forma de vida cristã.
Também a vida fraterna, em virtude da qual as pessoas consagradas se esforçam por viver em Cristo com « um só coração e uma só alma » (Act 4,32), se apresenta como uma eloquente confissão trinitária. Confessa o Pai, que quer fazer de todos os homens uma só família; confessa o Filho encarnado, que congrega os redimidos na unidade, apontando o caminho com o seu exemplo, a sua oração, as suas palavras e, sobretudo, com a sua morte, fonte de reconciliação para os homens divididos e dispersos; confessa o Espírito Santo, como princípio de unidade na Igreja, onde não cessa de suscitar famílias espirituais e comunidades fraternas.

Tenham um ótimo final de semana.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Passeio Socrático

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'.
'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'. 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!
Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhum preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!
Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
A palavra hoje é 'entretenimento'. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald's...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático'.
Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!"

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cenáculo: lugar da partilha e de novas descobertas

O cenáculo pode ser visto também como o lugar do testemunho de quem viveu com Jesus. Ali a Igreja nasceu pela força do Espírito que os enviou em missão. Ali adquiriram uma fé mais lúcida e madura, fortemente marcada pelos ensinamentos do Filho de Deus. O clima era de oração e de busca de conhecimento da verdade revelada, pois neles, ainda, pairavam muitas dúvidas. Pedro não tinha nenhuma familiaridade com o cargo e procurava entender o que significava aquela expressão: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,17).
Certamente Maria, na sua humildade, simplicidade e serenidade, conduziu aquele momento de oração para que a comunidade não se dispersasse. O que será que eles discutiam naqueles dias? Como eles rezavam? Certamente foram dias de reviver a trajetória de Jesus aqui nesse mundo. Maria deve ter sido o centro das atenções porque ela tinha muitas coisas para informar aos líderes da Igreja que aguardavam confirmação do Espírito. Certamente os apóstolos a ouviam, com muita atenção, os seus ensinamentos, a maneira como foi surpreendida na anunciação, a desconfiança de José, a fuga para o Egito, a perda e o encontro do menino no Templo, o início da sua vida pública e a dramática experiência aos pés da cruz. Maria deve ter narrado o quanto foi difícil para ela entender tudo aquilo. Porém as imagens continuavam vivas e inesquecíveis em sua mente. Ela conservava tudo em seu coração e esperava confiante na promessa do Filho, porque Deus já havia feito grandes coisas em seu favor (Lc 1, 49; 2,18-19).
Os apóstolos, agora, começaram também relembrar os bons momentos em que viveram juntos com Jesus. Foram três anos de grandes transformações em suas vidas. Os discípulos de Emaús recordaram novamente o episódio marcante da presença do ressuscitado com eles no caminho e o revelar-se ao partir o pão. Pedro, Tomé e os demais apóstolos agora ouvem as mulheres que presenciaram o túmulo vazio. Elas não cessavam de narrar o quanto ficaram tocadas com aquele acontecimento. Tomé também tomou a palavra e falou da sua experiência única com o ressuscitado. Todos esses fatos incendiavam os corações dos participantes e crescia neles a certeza de que não estavam aguardando em vão. Algo de surpreendente estava para acontecer.
        Nos dias em que estiveram reunidos no Cenáculo, puderam reler as escrituras com um novo olhar. Até porque, no caminho de Emaús, o ressuscitado já havia iniciado um diálogo com eles. Enquanto falava, os seus corações ardiam e seus olhos se abriam para uma nova realidade. Esse tema deve ter provocado muito interesse para reinterpretar os fatos passados à luz dos novos acontecimentos. Todo o esforço deles foi coroado no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo, definitivamente, mudou a rota da vida daqueles homens e mulheres. Ao saírem do Cenáculo, não eram mais os mesmos. Seus rostos eram resplandecentes de alegria e de entusiasmo. A vibração deles contagiou a todos. O único desejo era de transformar o mundo com a nova Lei instaurada por Cristo: a lei do amor. Aliás, isso causou até espanto aos moradores da redondeza. Muitos tentaram dar uma razão para aquela alegria contagiante: “Estão todos embriagados” (At 2, 12-13).

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cenáculo: lugar da espera paciente e da realização da promessa

O Cenáculo, além de ter sido um lugar de confraternização, foi também um local em que a Igreja teve o seu início pela ação do Espírito Santo. Até aquele momento, os apóstolos não estavam plenamente convencidos da missão que receberam de Cristo. A morte de Jesus provocou neles certa animosidade e desesperança. O desânimo era generalizado. Pedro e seus companheiros tentaram voltar à normalidade da vida, como acontece com as famílias diante da perda de um ente querido. Apesar da dor a vida tinha de continuar.
O evangelho relata que os apóstolos estavam fortemente propensos a retomar as atividades de outrora. Certo dia Pedro disse: “vou pescar e alguns dos discípulos disseram, nós também vamos contigo”. Naquele dia o lago de Tiberíades não estava para peixe. Eles nada pegaram naquela noite. Eis que ao amanhecer, na margem do lago, apareceu um homem misterioso que mandou jogar a rede do lado direito do barco e qual não foi a surpresa dos pescadores quando pegaram uma grande quantidade de peixes. Imediatamente após o milagre da pesca, João que tinha vivo em sua mente os últimos acontecimentos ao lado do Mestre, intuiu: “É o Senhor”! Ao ouvir isso, Pedro vestiu a túnica e se jogou na água e foi em direção à margem. Ao chegar à beira do lago, Jesus, mais uma vez os surpreendeu com pão e peixe assado e pediu que eles trouxessem o fruto do trabalho deles para colocar à disposição de todos. Ninguém ousava perguntar quem ele era (Jo 21,1-12).
O versículo 14 diz que essa era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois da ressurreição. Mesmo diante das evidências ainda não tinham superado o trauma da separação. Tudo o que viam parecia ser um pesadelo difícil de ser compreendido. Mas Jesus não desistiu, continuou sua missão agora para convencer seus operários a assumirem com generosidade a messe do reino. Parecia que nada nesse mundo fosse capaz de mudar a mente e o coração dos discípulos. O ceticismo era generalizado. Jesus se manifestou inúmeras vezes para que a comunidade se convencesse da nova realidade.
Aos poucos foram percebendo que a observância do sábado já não tinha mais sentido. O domingo passou a ser o dia em que os que acreditavam no Cristo se reuniam para meditar a palavra e participar da Ceia do Senhor que continuava vivo no meio deles.
O primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos afirma que após a paixão, Jesus mostrou-se vivo, com numerosas provas. Apareceu-lhes por um período de quarenta dias, falando do Reino de Deus. Ao tomar a refeição com eles, deu-lhes essa ordem: não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai da qual me ouviste falar, quando eu disse: João batizou com água; vós, porém, dentro de poucos dias sereis batizados com o Espírito Santo (At 1,3-5).
Na ascensão, Jesus conversou com eles e lhes deu as últimas orientações, mas não respondeu as indagações deles acerca do fim do mundo. Deixou-lhes, apenas, a certeza de que será enviado o Espírito Santo para que os discípulos pudessem dar testemunho dele em Jerusalém e até os confins da terra (At 1, 6-8).
Mesmo diante de tão grande acontecimento, os apóstolos continuavam com a mente obtusa e com os olhos ofuscados, tanto que apareceram dois anjos no céu que pediram para não ficarem somente contemplando o céu, mas que olhassem para a própria realidade com a plena convicção de que aquele que subiu ao céu virá do mesmo modo como viram partir para o céu (At 1, 10-11). Ainda com muitas dúvidas, retornaram para Jerusalém e ficaram na mesma sala que tinham costume de ficar, e ali se colocaram em oração, na companhia de Maria, de algumas mulheres e com alguns parentes de Jesus, para aguardar a promessa do ressuscitado (At 1, 14).
O grupo dos que se reuniram para aguardar o Espírito Santo era em torno de cento e vinte pessoas. No meio deles, Pedro toma a palavra e exorta a todos para que fosse eleito, em lugar de Judas, um daqueles que seguiu Jesus desde o batismo de João até o momento de sua despedida, para que junto com eles pudesse dar testemunho da ressurreição. Após rezarem tiraram a sorte para ver quem Deus iria escolher. A sorte caiu em Matias (At 1, 15-26).
Finalmente chegou o dia de Pentecostes e o Espírito Santo se manifestou sobre eles, enquanto estavam reunidos em oração. Lucas referindo-se à primeira criação em que Deus sopra e dá o hálito da vida, lembra que na segunda criação, ou seja, a obra da redenção, Deus soprou sobre eles o vento do Espírito para criar os novos homens. Como o Espírito fora destinado somente aos discípulos, então foi sentido apenas na casa em que estavam reunidos (At 2,1-11).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O que é o Cenáculo?

Para que possamos viver o espírito do Cenáculo, proposto por nosso santo fundador Vicente Pallotti, é preciso entender o que isso significou, no passado, para os apóstolos e para a Igreja primitiva, e como podemos experimentá-lo no presente.

Primeiramente a palavra Cenáculo significa: sala da ceia, ou da refeição.

“Jesus enviou Pedro e João, dizendo: Ide e preparai-nos a ceia da Páscoa. Perguntaram-lhe eles: Onde queres que a preparemos? Ele respondeu: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem carregando uma bilha de água; segui-o até a casa em que ele entrar, e direis ao dono da casa: O Mestre pergunta-te: Onde está a sala em que comerei a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará no andar superior uma grande sala mobiliada, e ali fazei os preparativos. Foram, pois, e acharam tudo como Jesus lhes dissera; e prepararam a Páscoa” (Lc 22, 8-13).

A ceia preparada pelos enviados de Cristo foi tão marcante que nunca mais saiu da memória dos participantes, mesmo que muitas coisas, de imediato, não tivessem sido compreendidas. O jantar poderia ter sido igual a tantos outros que aconteciam por ocasião da Páscoa, mas aquele foi muito especial. Jesus tinha percebido que a sua hora tinha chegado e por isso, com muita tranqüilidade, pediu que aquela Páscoa fosse bem preparada, para que ficasse gravada na mente de todos ao longo dos séculos.

Jesus escolheu um lugar espaçoso e acolhedor, longe dos olhares curiosos, para que pudesse se alegrar com seus amigos antes de partir definitivamente deste mundo. Junto aos seus discípulos deu suas últimas instruções. Ele não só jantou com eles, mas fez algo que até então ninguém havia feito antes. Ele tomou o pão e abençoou e disse palavras misteriosas que, à primeira vista, não foram compreensivas: “isto é o meu corpo dado por vós”. Tomou o cálice com vinho, repetiu a benção e disse: “isso é meu sangue derramado por vós. Fazei isto em minha memória” (Mt 26,26-28). Na verdade, o que ficou naquele momento na mente dos discípulos foi apenas uma indagação. O que é realmente isso? O gesto de Jesus só foi compreendido integralmente após sua ressurreição.

Tudo foi muito rápido e sem explicação. Aliás, eles estavam pasmos diante das palavras misteriosas do Mestre. Diante de tamanha novidade, não conseguiram nem mesmo elaborar uma pergunta sequer, porque Jesus sempre os surpreendia com alguma novidade. Eles estavam tão atônitos que nem conseguiam perguntar quem seria o traidor. Acotovelavam-se para que alguém perguntasse quem deles o iria trair. Sobrou para João fazer a pergunta, pois era notória a sua proximidade com o Mestre, e perguntou quem poderia ser (Jo 13,20-26). A resposta deixou-os ainda mais confusos, porque Jesus disse: aquele a quem eu der o pão embebido. Em seguida, molhou o pão e deu-o a Judas. Naquele momento já não havia mais espaço para a lucidez, pois não haviam compreendido nada.

Após a Ceia, Jesus foi ao monte das Oliveiras para rezar e levou consigo alguns dos discípulos (Mt 26,37). Mas naquela noite era difícil ficar concentrado para rezar. Uma voz parecia tomar conta da emoção daqueles que seriam os continuadores da obra iniciada pelo salvador. As palavras da Ceia latejavam em suas mentes e acabaram dormindo. Por várias vezes Jesus voltou de onde estava em oração e os convidou para rezar com ele. Jesus procurou estimulá-los para que pudessem sair daquele torpor, daquela letargia e animosidade. Mas foi em vão. A cabeça estava muito pesada (v. 41-46). A apreensão invadiu de tal maneira o coração deles que não reagiam. Isso prova que a angústia era tamanha que não conseguiam mais pensar em nada. Houve um bloqueio emocional e se desligaram das coisas mais elementares da vida. Só tinham dentro de si pensamentos neurotizantes. O pavor tomou conta das suas mentes. Isso foi até quando apareceu Judas ladeado por soldados fortemente armados para capturar o inimigo da nação. Judas se aproximou daquele com quem há poucas horas tinha feito refeição e desferiu um beijo em seu rosto (v. 47-48.55). Daquele momento em diante o pavor tomou conta dos amigos de Jesus. Cada um foi para um lado (Mc 14, 50). As indagações provenientes da Ceia agora começam a tomar novos contornos. Eles perceberam que tudo estava se aproximando do fim e restou apenas a desolação e os questionamentos. Como será daqui para frente?

Daquele momento em diante, os amigos de Jesus se dispersaram, um deles saiu nu correndo pela escuridão em meio aos olivais salvando-se daquele fatídico acontecimento (v. 51-52). Jesus foi preso e passou por muitas humilhações. Foi levado até às autoridades, foi zombado, interrogado noite adentro, maltratado. Há algumas horas estava rodeado de amigos, agora enfrenta a solidão, a dor e o desprezo. Pedro tentou acompanhar de longe o desfecho, mas como também estava muito atordoado com a situação, não agüentou, diante da pergunta de uma serva, não titubeou, negou ser amigo de Jesus (v. 54.66-70). A sua mente estava bloqueada, os seus sentimentos arrasados, a sua esperança amordaçada. Sobrou apenas tristeza e desolação. A derrota tomava conta do seu interior. Após negar Jesus o galo cantou e um zumbido em seu ouvido, tão rápido como um raio, despertou sua consciência ferida e se recordou das palavras do Mestre: “Tu me negarás três vezes, antes que o galo cante”. Pedro chorou amargamente por se sentir incapaz de ser fiel e por não ter tido a força suficiente para retomar o caminho (v. 72). Jesus saiu da sala do interrogatório e olhou firmemente nos olhos de Pedro. Ele estava abatido, emocionalmente encarcerado, algemado, simplesmente incapaz de ser ele mesmo. Estava irreconhecível. Só lhe restou o pranto.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Os caminhos para restaurar a imagem de Deus em cada pessoa (Reflexão 6)

Deus infinito Amor e infinita misericórdia

Deus nos criou à sua imagem por seu infinito amor, e nós caímos na miséria por causa do nosso pecado. Deus, porém, com sua infinita misericórdia, quer reconstruir sua imagem em nós por meio de seu Filho.

A consideração das criaturas leva Pallotti a recordar sobretudo aqueles aspectos que dizem respeito à necessidade de restaurar no homem a imagem de Deus. Por exemplo: a noite, criada para o repouso, muitas vezes serve ao homem para pecar na obscuridade; os sons do canto, em vez de ajudarem a fazer e apreciar a harmonia da criação e louvar a Deus servem tantas vezes para estimular o mal, as paixões desordenadas do homem; os alimentos e as bebidas, criadas para remediar as necessidades temporais do homem, muitas vezes instigam a intemperança e as ações brutais etc.

Jesus Cristo, perfeita imagem do Pai

Jesus Cristo Redentor é apresentado como o dom da infinita Misericórdia e do infinito Amor de Deus para com o homem pecador. Pallotti concebe que Deus, depois do pecado de Adão, que nos fez destinados ao inferno, movido pela sua infinita Misericórdia, como enamorado do homem tanto ingrato como miserável, lhe promete o Redentor, seu próprio Filho divino: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Deus feito homem não somente nos redime, mas, pela sua santíssima humanidade, nos ensina como viver para renovar e aperfeiçoar nossa alma enquanto viva imagem de Deus. A atenção de Pallotti foi dirigida sobretudo à imitação de Cristo pobre, trabalhador, humilde, obediente na abnegação, sujeito ao sofrimento.

Pallotti nos propõe a meditação como método para alcançar as virtudes de Cristo. Concretamente, o seu método propõe o conteúdo da fé, explicando à luz da doutrina da Igreja os artigos do Creio. Com isto deseja suscitar na alma sentimentos de contrição, considerando a indignidade da própria conduta e a situação da miséria da própria alma por não ter respondido aos desígnios do amor de Deus.

O conhecimento do desígnio de Deus, realizado em plenitude na mais perfeita imagem do Pai, Jesus Cristo, torna a alma consciente do caminho que deve percorrer. A oração que segue exercita a esperança e a confiança em obter aquilo que a alma deseja no colóquio com: Deus, meu Pai ou com: Meu Deus, Jesus meu, redentor da minha alma. Pallotti deseja restaurar a imagem de Deus, Amor infinito, em sua própria alma, nos aspectos em que descobre ter particular necessidade. [HP II, p. 506-509]

Para concluir, pode-se afirmar que o opúsculo de Pallotti: Deus, o amor infinito contém a proposta de um método de meditação cristã, solidamente fundado, para restaurar no homem a imagem de Deus deformada pelo pecado.

A adaptação da linguagem se faz necessária para que as pessoas do nosso tempo possam crescer sempre mais na experiência de Deus, e no desejo de buscar a Cristo Apóstolo do Pai, nas atividades mais singelas de cada dia. Para isso, é urgente que cada pessoa tome contato com a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela, entregando todo seu presente, passado e futuro nas mãos daquele que pode trazer a paz (Lc 19,42; Mt 10,34).

Hoje encontramos pessoas desintegradas interiormente, em contínua falta de coerência aos critérios escolhidos, sem confiança em si mesmas e sem capacidade de confiar nos outros. Falta o ponto de unificação da própria personalidade. Eis a importância de ter critérios de fé, assimilados solidamente na meditação pessoal, encarnados e colocados como base da própria vida afetiva. Somente Cristo pode dar unidade de vida, restaurando no homem a imagem de Deus que ele mesmo nos deixou com sua palavra e sua vida e que Ele agora realiza por meio da Igreja. [HP II, p. 512].